POR: Daniel Pellizzari

A minha frustração com a série “GTA”, da Rockstar, e tudo que ela representa chegou ao ápice com “GTA 4”. Quando o jogo foi interrompido por mais uma ‘cutscene’ (sequência sobre a qual o jogador tem nenhum ou pouco controle) indicando outra missão idiótica para Niko Bellic, me perguntei por que diabos perdia tempo com aquilo.

Nunca gostei de nenhum título da série, mas a curiosidade vencia. Eu precisava confirmar se as resenhas cheias de elogios se justificavam. No fim, minha reação era sempre a mesma: “Mas só podem estar de brincadeira com o papi.”

GTACartunista Alpino
Por isso não estou jogando “GTA 5”, nem jogarei. Não por ser um esnobe que só gosta de games obscuros e independentes, nem alguém que prefere se limitar a papéis de ursinho carinhoso.

Para ficar em apenas um exemplo, sou fã do blockbuster “Mass Effect”, e minha comandante Shepard não é exatamente uma boa pessoa.

“GTA 5” rendeu mais de US$ 1 bilhão em menos de um mês. Isso não apenas não anula o fato de haver algo muito errado com a série, mas o sublinha.

Não me alongarei sobre os personagens detestáveis: são criminosos, afinal de contas. Que podiam ser mais bem construídos, ou ao menos não perder o tom paródico do início da série.

Isso foi levado a extremos de absurdo por “Saints Row”, numa reação direta à tentativa de afetar seriedade por parte de “GTA”.

Temos aqui um jogo que não se decide entre ser um playground ou um jogo narrativo baseado em missões predeterminadas.

Só que essa narrativa não avança de forma orgânica, através do “gameplay”, mas por “cutscenes” sugadas do mundo audiovisual.

“Peraí, ninguém joga ‘GTA’ pela história”. É verdade. Mas toda a retórica de “sandbox” e “liberdade” cai por terra com um mínimo de olhar crítico.

O “mundo aberto” é mesmo amplo, até bonito. Isso só aumenta a decepção quando a pobreza de mecânicas se apresenta. Praticamente a única forma de interação possível com o mundo
do jogo é alguma forma de violência, em geral sem um contexto que a justifique.

Quando você só pode agredir um personagem, cadê a liberdade?

Chega a ser covardia comparar as possibilidades oferecidas por “GTA” com a liberdade de “sandboxes” genuínos como “Minecraft” ou “Garry’s Mod”.

E tudo isso temperado pela tradicional imprecisão dos controles, que enfurecem até os maiores fãs. Falhar num objetivo por incompetência é esperado: fracassar por culpa do jogo é inadmissível.

Nada contra a existência de “GTA”, lógico.

O que me frustra é o lugar que a série ocupa não apenas no cenário dos games, mas na cultura do entretenimento como um todo.

Uma linguagem tão rica em possibilidades reduzida a um festival gratuito de velocidade, explosões, violência e barulho, engrossado pelo aplauso de milhões.

E a impressão que me fica é que esse ruído todo não serve para encobrir o silêncio -essa coisa tão desejável em doses parcimoniosas, e não apenas nos games- mas para tentar, em vão, anular um vazio. E isso é tão triste.

Mas, ei, tem carros!

 

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/danielpellizzari/2013/09/1348606-a-tristeza-extraordinaria-de-gta.shtml

Um comentário

  1. COBRA-KAMPAS

    30 de setembro de 2013 em 22:22

    é isso mesmo, muito valorizado esse joguinho!

    Resposta

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