Você deve ter ouvido falar nos últimos dias sobre a TelexFree. É uma empresa que vende o 99TelexFree, um serviço de VoIP (esse você provavelmente não conhece). Mas o principal atrativo para quem entra no negócio é a formação de uma rede de “divulgadores”, que postam anúncios diariamente na internet. A empresa promete margens de lucro consideráveis através do que ela chama de “marketing multinível”. Interessante, certo? Calma lá. O que temos aqui é uma roupagem moderna para algo que assombra muita gente há muito tempo.

De acordo com o G1, a TelexFree está sendo investigada pela Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor (Senacon), pelo Ministério Público Estadual (MP-ES) e pela Polícia Civil. Além disso, a Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda emitiu uma nota dizendo que o negócio não se sustenta. A suspeita é que seja um esquema de pirâmide — ou seja, chegará um momento em que a base não conseguirá mais vender os produtos nem expandir sua rede de divulgadores, fazendo o sistema ruir.

Entenda quais são os principais pontos do negócio da TelexFree — e por que eles não são muito confiáveis.

A TelexFree vende serviços de VoIP…

A empresa funciona da seguinte forma: o interessado pode optar por um dos seguintes planos: Partner, que custa US$50 dólares, valor da taxa de adesão; AD Central, que custa US$ 289, mais adesão, e dá dez pacotes VoIP para serem revendidos; ou AD Central Family, que custa US$ 1.375, mais adesão, em troca de 50 pacotes VoIP. O valor por pacote, por tanto, é de US$ 28,90. Eles devem ser revendidos a US$ 49,90.

Há, além disso, um atrativo: os planos AD Central e AD Central Family pagam para o comprador divulgar o serviço na internet. No primeiro plano, sete anúncios por semana rendem um pacote VoIP. No segundo, 35 anúncios dão ao contratante cinco pacotes para serem vendidos. Nos dois, os pacotes podem ser repassados para a própria TelexFree por US$ 20 ou revendidos por US$ 49,90.

…mas isso não importa muito, por que a ideia é que você pode ganhar muito dinheiro em pouco tempo.

O grande atrativo, no entanto, não é a venda dos produtos — na verdade, eles pouco importam: o que enche os olhos é a promessa de ganhar muito dinheiro montando uma equipe de divulgação. Esse é o carro-chefe dos anúncios, não o serviço de VoIP, que quase nunca é citado. Como observa o blog Meu Dinheiro Em Casa:

Vê-se que o plano de negócios dá enfase em demasia na indicação de pessoas e não no produto […]. E isso fica evidente na própria apresentação oficial da empresa que só diz em um único slide em linhas resumidas qual o produto que ela tem a oferecer.

A rede de divulgadores funciona assim: você tem que indicar um outros duas pessoas para participar, que serão os qualificadores. Eles, por sua vez, criam duas equipes, que a apresentação chama de “esquerda” e “direita”. Você ganha US$ 20 por cada cadastro direto no plano AD Central e US$ 100 pelo cadastro direto no plano AD Central Family.

Cada vez que seus qualificadores conseguirem um novo divulgador para cada uma das equipes, você também ganha US$ 20. Além disso, você ganha 2% sobre os valores recebidos pela sua rede (até o sexto nível) pelos anúncios. Se sua equipe conseguir formar 22 ciclos de AD Central por 20 dias, você irá “partilhar 1% do volume de negócios da empresa como bônus extra”. Por fim, se você conseguir indicar 10 assinantes de AD Central Family, recebe o bônus team builder, que é “2% do faturamento líquido mensal da empresa, divididos igualmente entre todos os team builders”. O valor máximo desse bônus é de US$ 39.600.

Confuso, não? São muitos bônus e muitas condições, mas há uma coisa para seduzir quem está interessado: valores consideravelmente altos em relação à quantia investida e à suposta facilidade de conseguir. Para chamar a atenção para esse tipo de lucro, vídeos como esse infestam o YouTube:

 

Por que preocupa?

As reclamações de divulgadores que se sentiram lesados começam, aos poucos, a aparecer. De acordo com o site do jornal A Gazeta, de Vitória (ES), 780 queixas foram cadastradas no Reclame Aqui em oito dias. O G1 relata que duas mil ligações foram feitas para o Procon do Mato Grosso em três meses.

A TelexFree diz que são quase 700 mil associados no Brasil. Para conseguir os lucros prometidos, cada um dos participantes tem que conseguir mais gente para sua rede de divulgadores. Isso é o que levanta suspeitas de que a TelexFree se trata, no entanto, de um esquema de pirâmide: chega um momento em que não é mais possível conseguir agregar mais pessoas ao negócio. Como diz anota técnica da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda sobre a empresa (link em pdf):

Ocorre que, na prática, os ganhos financeiros mais substantivos não advêm dos anúncios, mas sim do ingresso de novos divulgadores na rede do divulgador inicial. De fato, o que se observa na mecânica de divulgação empreendida pela Telexfree é que é a captação de novos “investidores” que assegurará, efetivamente, os ganhos de mais de 240% ao ano, considerando o valor inicialmente aplicado, prometidos nos citados anúncios. Se não houver o ingresso de novos interessados, é impossível obter os ganhos anunciados, indicando, salvo interpretação contrária, a falta de sustentabilidade do negócio.

A situação fica ainda pior quando se descobre que a comercialização do pacote VoIP precisa ter autorização da Anatel — e este não é o caso da TelexFree.

Observando os documentos apresentados nesta Secretaria, é possível concluir que a Ympactus Comercial Ltda. [razão social da TelexFree no Brasil] (…) tinha por Objetivo Social a intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral (…) e, portais provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet (…), não apresentando nenhum documento ou infraestrutura necessária para o provimento e viabilização da tecnologia VoIP. De fato, a representante sequer apresentou algum contrato ou protocolo de funcionamento com alguma operadora de telefonia autorizada pela Anatel que permitisse a ela efetivamente viabilizar a prestação de serviço VoIP.

Sobre a questão da venda do VoIP, a TelexFree se defende em comunicado oficial, postado em sua página no Facebook:

A TelexFREE não pratica a venda de bens ou serviços, motivo pela qual não necessita obter autorização de atividades de comércio; a entrega das contas VoIP é efetuada diretamente pela TelexFREE dos Estados Unidos aos consumidores em qualquer lugar que se encontrem; em outros termos, é naquele paíse que ocorre a prestação de serviços VoIP.

Então “marketing multinível” é um eufemismo para… pirâmide?

E, aqui, chegamos ao ponto em que o alarme da sua cabeça já estava tocando bastante. “Marketing multinível”… Nome bonito, mas o que diabos é isso? A Wikipédia define marketing multinível, área em que a TelexFree diz atuar, como

uma estratégia de marketing em que os esforços da equipe de vendas não são pagos apenas pelas vendas que eles realizam pessoalmente, mas também pelas vendas de outras pessoas que eles recrutam. A equipe de vendas recrutada é chamada de “linha vertical”, e pode fornecer múltiplos níveis de compensação.

O ponto, então, é saber quanto do dinheiro virá de vendas realizadas e quanto virá de ganhos indiretos com outros níveis de recrutamento. Dr. Jon M. Taylor, responsável pelo site MLM-TheTruth.com — criado depois de ele ter perdido dinheiro trabalhando para uma empresa de MMN de Utah, EUA —, aponta cinco pontos a serem considerados, que ele chama de Five Red Flags:

  • O recrutamento de participantes é ilimitado, gerando uma cadeia infinita de recrutadores motivados recrutando mais recrutadores.
  • O avanço numa hierarquia de múltiplos níveis de participantes é alcançado por recrutamento, não por indicação.
  • Compras contínuas (produtos da empresa e/ou ferramentas de vendas, materiais de apoio para negócios, treinamento, etc) feitas pelos próprios participantes são encorajadas para que eles sejam elegíveis para comissões e avançar no negócio (“pague para participar”).
  • Para cada venda, o pagamento da empresa para todos os participantes da cadeia é igual ou maior do que para a pessoa que está vendendo o produto, criando um incentivo inadequado para vender produtos diretamente e um incentivo excessivo para recrutar novos participantes.
  • A companhia paga comissões e/ou bônus para mais que quatro níveis de participantes.

O site esclarece que nenhum desses pontos consiste, sozinho, num esquema de pirâmide, mas juntos, fazem com que quem esteja no topo da pirâmide ganhe muito mais dinheiro que as vítimas que estão na base. E aí entra o ponto: a maioria dos serviços semelhantes ao TelexFree usam, sim, os cinco pontos levantados por Taylor.

Numa matéria do The Verge sobre a Herbalife, outra empresa que tem sua atuação questionada no mesmo sentido, Taylor é muito direto ao tratar do assunto:

Marketing multinível e esquemas de pirâmide são a mesma coisa, uma distinção sem diferença. Algumas pessoas evitam dizer isso, mas eu não. Todas essas empresas [de MMN] envolvem um modelo de pagar para participar em que os participantes precisam bancar seu próprio salário.

Portanto, as dúvidas sobre a TelexFree parecem estar bem fundamentadas. É uma empresa que vende um serviço de VoIP por um valor maior que a média de mercado, o que atrapalha sua competitividade, e paga valores incrivelmente altos por anúncios na web, além de incentivar a expansão desenfreada de sua rede de divulgadores para atingir aos participantes os lucros prometidos. É melhor não se arriscar.

Fonte: http://www.gizmodo

2 Comentários

  1. Ivan Magalhães

    5 de abril de 2013 em 12:29

    QUER ENTRAR NA TELEXFREE FALE COMIGO, ENCINO POSTAR ANUCIOS TIRO TODAS AS DUVIDAS
    LINK PARA CADASTRO: http://www.telexfree.com/ivangbi
    E-mail: ivan.mts@hotmail.com
    Skype: ivanramos.44
    entre em contato.

    Resposta

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