Elas nos enganaram com promessas falsas, brincaram com nossos corações, pisotearam nossa autoestima, tiraram nosso sono como se fossem ex-namoradas do mal usando Gameshark. Mas as semelhanças entre Valve e Sony nos acontecimentos dos últimos meses terminam aqui. Enquanto a primeira foi acusada de vilã sádica e trapaceira, a segunda se transformou em vítima e acabou ganhando a compreensão inquestionável de milhões de usuários – tão ou mais vítimas que ela. Eu, que desconfio de protestos desde que furei aquele boicote à escola no dia de excursão ao Playcenter, só gostaria de entender melhor como funcionam nossos critérios para xingar muito essas empresas sanguinárias e aproveitadoras – e acho que só vocês podem me ajudar.

A Valve, que até então parecia ser unanimidade de “preço baixo e conteúdo de qualidade todo dia”, inventou de criar um jogo de realidade alternativa (ARG)  para promover Portal 2. A ideia era lançar pistas e piadinhas atreladas a um mecanismo de jogatina no Steam para acelerar o lançamento de Portal 2. Se um número suficiente de pessoas participasse por determinado tempo, o tão aguardado jogo de portais seria lançado mais cedo. As regras não eram muito claras, a participação era voluntária. Não era um contrato, não tinha um regulamento. Era, simplesmente, um jogo envolvendo jogos no objetivo de levar a outro jogo – coisa que os antigos constumavam chamar de “diversão”.

Foram dias em que a comunidade “true gamer” se dedicou a uma maratona jogando, tentando entender o sistema do ARG e fazendo as contas para saber em quantas horas o lançamento de Portal 2 seria antecipado. O mutirão funcionou, e Portal 2 foi lançado cerca de 12 horas antes do previsto. Mas o jogo não importava mais. Tinha sido ofuscado por uma multidão de “consumidores indignados” prontos para “exigir seus direitos”, negativar Portal 2 no site de análises Metacritic e ensaiar boicotes à empresa. A Valve passou de “amiga da garotada” a “empresa que trafica órgãos de crianças vietnamitas para fazer a fortuna de Gabe Newell“, como se fosse uma GLaDOS da vida real manipulando seus usuários em salas de teste.

O caso da Sony exige análise forense e investigação profissional, já que faz parte de um contexto mais amplo que se desenrola por meses, mas vamos simplificar. A base da polêmica são as disputas entre hackers e a dona do PlayStation 3. Vimos o videogame ser destravado por um mutirão hacker, a empresa tentando caçar os culpados, o show de GeoHot e as indas e vindas nos tribunais norte-americanos. Quando tudo parecia resolvido, a PSN saiu do ar. Ficamos sabendo, aos poucos e depois de algum suspense, que hackers haviam invadido a rede e roubado informações. Nomes, senhas, emails, endereços. E, “possivelmente”, números de cartões de crédito de milhões de usuários. Estava armado o palco para passeatas pelos direitos do consumidor, boicotes impiedosos contra a gigante japonesa e compreensíveis tuitadas e protestos virtuais pedindo a cabeça de Kazuo Hirai e seus companheiros.

Mas, com exceção de algumas denúncias duras incluindo a hashtag “#fail” e as sempre presentes piadas comparando PSN e Xbox Live, a reação foi morna. “Perder algumas horas” jogando o ARG da Valve era mais grave que “perder os números do seu cartão de crédito”? Nós nos identificamos com a Sony, acolhendo-a no barracão de desabrigados, e isso fez parecer que o “crash” na PSN não era tão grave?

Assim, a empresa que criou uma alternativa lúdica e até deu descontos em jogos para envolver a comunidade em torno de um interesse comum saía de campo acusada de “traidora”. Já a empresa que, mesmo sabendo que era alvo potencial de hackers, demorou dias para detectar a gravidade de uma invasão e chegou a dizer que “olha, talvez seus cartões de crédito tenham sido roubados, mas ainda não termos certeza” se transformava na maior vítima.

Se eu fosse usar nariz de palhaço e ocupar vias públicas, seria com cartazes da Sony, não da Valve. Mas a ironia é que eu também poderia encontrar cartazes do Kotaku Brasil – que pode não ser uma empresa grande, mas tem seus “skill points” de caráter sanguinário.

Porque essa “reivindicação de direitos” que acaba ganhando ares de “mimimi descontrol” às vezes também surge por aqui. Leitores que nos xingam pelos mais diversos motivos, às vezes com razão e às vezes pelos motivos errados. Mas muitas vezes com uma falta de elegância (ou educação) que nos levaria a contratar Ed Motta como estagiário de redes sociais. Temos conversado, e até agora ninguém morreu. Aprendi que (entra o pianinho) uma troca de mensagens civilizada é possível e pode trazer bons resultados – na maioria dos casos. Presto depoimentos por email, por exemplo, sobre o incômodo redirecionamento cruzado com o Kotaku US, que nos incomoda tanto quanto a vocês.

Uma parcela dos leitores (ou talvez de não-leitores) acha que somos os vilões. Estamos “censurando o Kotaku US”, “roubando cliques”, “achando que eles não sabem ler inglês” e querendo sabotar a internet mundial – argumentos que exigiriam a contratação de Gil Brother no lugar do cantor citado anteriormente. Um leitor diz que “não liga a mínima para o site em português”. Mas se “ligasse a mínima” para o site em inglês, talvez tivesse lido o post de Joel Johnson em que ele fala que o “redirect fail” tem origem na versão americana e nos bugs decorrentes do novo layout adotado por eles. Estamos fazendo a nossa parte ao tentar ajudar os camaradas gringos na solução do problema, mas não é algo que esteja a nosso alcance.

É justo e libertário poder xingar a Valve, a Sony, o Kotaku Brasil, o padeiro mal intencionado, corrupto, comunista e pirateiro que colocou no pacote um pão não tão “moreninho” como você havia pedido. Mas o Ministério da Saúde recomenda que, pelo menos uma vez por semana, você tente transformar essa ira em palavras civilizadas. Nosso email de contato (dicas@kotaku.com.br) está sempre aberto para um co-op equilibrado, o que costuma ser mais legal que um deathmatch pelo Twitter.

[Fotos e telinhas:
1 – Fallout: New Vegas fazendo sua parte pelos diálogos civilizados no deserto de Mojave
2 – Fórmulas matemáticas e leis da física fazem parte das conspirações de Portal 2 (dentro e fora do jogo)
3 – Protesto “Churrascão da Gente Diferenciada”  em São Paulo neste sábado (14) – Luís Eduardo Catenacci/Flickr]

http://www.kotaku.com.br

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